Exatos 65 anos depois do Maracanazo, morre o protagonista: Ghiggia

Ghiggia, na homenagem de 2013: herói da Copa de 1950

Ghiggia, na homenagem de 2013: herói da Copa de 1950

Dezesseis de julho de 1950. Brasil e Uruguai decidiam a Copa do Mundo. A seleção brasileira jogava em casa, no Maracanã, e levava a taça em caso de empate. Todos os discursos apontavam para o título, uma certeza que ficou ainda mais forte depois que Friaça marcou 1 a 0 para o Brasil.

Mas do outro lado havia um uruguaio. Alcides Eduardo Ghiggia. 23 anos. Ponta-direita.

Aos 21 minutos, Ghiggia escapou pela ponta-direita e cruzou para Schiaffino marcar o gol de empate do Uruguai.

Aos 34 minutos, Ghiggia escapou pela ponta-direita. Jogada similar. Ele passou pela marcação de Bigode. Juvenal vinha para tentar a cobertura ao colega de defesa do Brasil e parou. Não deu combate. Todos esperavam novo cruzamento. Mas eis que Ghiggia arriscou o chute direto. A bola sai cruzada, com relativa força, quase do bico da pequena área. E entra rente à trave esquerda de Barbosa, que também esperava um cruzamento e caiu atrasado na bola. Gol do Uruguai. O gol do título. O Maracanã emudeceu. Aquele dia 16 de julho ganhou nome: Maracanazo. A derrota eterna da seleção brasileira.

Nesta quinta-feira, 16 de julho de 2015, 65 anos após o Maracanazo, Ghiggia não resistiu a um ataque cardíaco. Morreu aos 88 anos – faria 89 em 22 de dezembro. Embora fosse o herói do bicampeonato mundial do Uruguai, ele nunca se deitou nessa fama. Nem sequer teve uma vida luxuosa após o fim da carreira. Chegou a trabalhar até como instrutor de autoescola. Mas tinha uma frase clássica: “Apenas o Papa, Frank Sinatra e eu calamos o Maracanã”, dizia, sempre respeitosamente, o último remanescente daquela final.

A maior homenagem pelo feito no Maracanazo ocorreu apenas em 2013. O Uruguai disputava a repescagem das eliminatórias para a Copa de 2014 contra a Jordânia. Por ter feito 5 a 0 no jogo de ida, em Amã, a Celeste estava praticamente classificada quando houve a partida de volta, em Montevidéu. Antes do jogo, Ghiggia entrou no estádio em um carrinho-maca, ficou de pé com ajuda de muletas – ele havia sofrido um grave acidente automobilístico meses antes – e foi amplamente aplaudido pela torcida uruguaia. O empate em 0 a 0 com a Jordânia, que habilitou a Celeste para o Mundial do Brasil (de novo no Brasil) se tornou irrelevante pelo que aconteceu antes do jogo. Ghiggia no centro do campo e milhares de torcedores nas arquibancadas ouviram a narração daquele gol na final da Copa de 1950. Quando a bola tocou a rede nas imagens em PB no telão do estádio Centenário, o silêncio de 200 mil no Maracanã se transformou em vibração de milhares de uruguaios presentes. Isso levou o ex-craque a derramar singelas lágrimas.

Ghiggia não era apenas o herói de uma final, mas também ostenta um recorde para poucos. Marcou gols em todos os jogos que disputou em uma Copa, inclusive na decisão. Em 1950, anotou um gol em cada jogo disputado pela Celeste – 8 a 0 sobre a Bolvia, 2 a 2 com a Espanha, 3 a 2 sobre a Suécia e a final diante do Brasil. Apenas o argentino Stabile (1930) e o brasileiro Jairzinho (1970) conseguiram tal feito.

A história de Ghiggia em Copas do Mundo terminava ali naquele 16 de julho de 1950. Vendido à Roma (Itália) em 1952, não disputou o Mundial de 1954, embora ainda tivesse 27 anos. Depois disso, naturalizou-se italiano para defender a Azzurra na Copa de 1958, mas o projeto de ir à Suécia naufragou: a Itália não sobreviveu às eliminatórias.

No fim de 2013, Ghiggia fez uma de suas últimas aparições públicas. Veio para o Brasil para participar do sorteio dos grupos da Copa do Mundo de 2014, ao lado de figuras como o francês Zidane, o inglês Hurst, o alemão Matthäus, o espanhol Hierro, o brasileiro Cafu, o argentino Kempes e o italiano Cannavaro. Foi o mais aplaudido de todos.

Em 16 de julho de 1950, Ghiggia fez algo que se tornou eterno.

Em 16 de julho de 2015, exatos 65 anos depois, Ghiggia tornou-se, ele mesmo, eterno.

Não é coincidência. É a ação dos deuses de futebol.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

No Banner to display